Com o objetivo de incentivar a leitura e o aprendizado, Contos & Parlendas oferece histórias para ler junto aos episódios da nossa série do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

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Os Espantos do Prí­ncipe
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

O Príncipe Escamado e sua comitiva, depois de chegarem ao sítio de Dona Benta, foram passear e conhecer o que havia por lá. Pedrinho fora dar uma volta com o Capitão dos Couraceiros, vindos para a guarda do Príncipe. Pedrinho tinha paixão por histórias de caçadas, guerras, lutas de boxe – aventuras de terra e de mar, como dizia Dona Benta. Ouvia com interesse as histórias do Couraceiro e contava outras. Contou histórias de onças, tigres de Bengala, leões da Uganda e jacarés do Pantanal.

COURACEIRO

- E qual bicho da terra que acha mais perigoso? Dizem que ser o leão.

PEDRINHO

- É e não é. É porque é, e não é porque com o homem já arrumou meios de prender o leão. Para mim o bicho mais perigoso é uma tal de vespa, que quando morde incha o lugar e arde que nem fogo.

COURACEIRO

- E com uma bala na cabeça qualquer caçador não dá cabo de uma vespa?

PEDRINHO

- Se acertar, sim. Mas ainda está para existir um caçador que acerte uma bala em cabeça de vespa.

COURACEIRO

- Só se são encantadas...

PEDRINHO

- Pior do que isso. São desse tamanhinho, e voam como umas danadas. Uma ferrou na ponta da língua de Narizinho. A coitada viu fogo!

COURACEIRO

- Pois eu queria só encontrar-me com uma!

PEDRINHO

- Sua valentia, Capitão, vem da couraça. Tire a casca e venha lutar com uma vespa, se é capaz!

Estavam nesse ponto quando Emília passou, muito requebrada no seu vestido. Ia tão absorvida em altos pensamentos que nem os reparou. Narizinho e o Príncipe percorriam o sítio. Já haviam visitado o chiqueirinho do porco Rabicó. Estavam agora sentados na grama, à espera de Emília para irem ver a Vaca Mocha. O Príncipe não fazia a menor ideia do que fosse uma vaca e mostrava-se muito impaciente por ser apresentado àquela.

NARIZINHO

- A Vaca Mocha é a senhora mais importante aqui do sítio. Vaca não come minhoca, sabia? Uma Pedrinho fez a experiência. Pôs-lhe uma gorda minhoca no cocho. Sabe o que ela fez? Virou de cara de lado e cuspiu de nojo.

O Príncipe lá no seu íntimo achou que a vaca devia ser uma criatura de muito mau gosto. Ter nojo de minhoca era para ele a coisa mais absurda do mundo. Nisto chegou a Emília. Foram em direção à cocheira. Assim que deu com a vaca, o Príncipe estacou, de olhos muito arregalados. Nunca supôs haver um bicho tão fora de propósito.

NARIZINHO

- Pois é esta a Mocha, Príncipe. Veja que respeitável senhora é, que pelo macio, que pontudos chifres. Mocha quer dizer sem chifres. Esta é a única exceção que há no mundo, isto é, aqui no sítio.

PRÍNCIPE

- E que é isto que ela tem pendurado aqui embaixo?

NARIZINHO

- São as tetas. Teta quer dizer torneirinha de leite. Tia Nastácia espreme essas torneirinhas para tirar uma água branca chamada leite. Todas as manhãs eu tomo um copo dele leite bem quentinho e espumante, tirado justamente dessas torneirinhas.

PRÍNCIPE

- E isto aqui?

NARIZINHO

- Isso é um espantador de moscas. Serve para espantar as moscas que vêm brincar em cima dela.

EMÍLIA

- Esses espantador foi pregado aí por Tia Nastácia. Quando a Mocha nasceu não tinha nada atrás.

NARIZINHO

- Não acredite, Príncipe! Emília está bobeando você. Todas as vacas já nascem de espantador, assim como todos os peixes já nascem de cauda.

PRÍNCIPE

- Também são espantadores de moscas?

NARIZINHO

- Não! Isso aí são espantadores de gente. Chamam-se chifres e servem para chifrar.

PRÍNCIPE

- Chifrar? Que é chifrar?

NARIZINHO

- Chifrar é dar chifradas, entende? É dar uma cabeçada com os dois espetos tortos na testa. Mas não tenha medo. A Mocha não chifra ninguém – a não ser cachorro que vem latir perto dela.

PRÍNCIPE

- E essas quatro estacas?

NARIZINHO

- Pois não vê que são as pernas? Sem isso, como poderia a vaca ficar de pé e andar?

O Príncipe não tirava os olhos da vaca, sempre muito admirado. Quis saber como é que ela fabricava o leite.

NARIZINHO

- Está aí uma coisa que não sei. A Mocha come capim, come sabugo, come abóbora, mastiga tudo muito bem, engole – pelo outro lado sai o leite pelas torneirinhas. Tudo quanto come vira em leite. Este é um mistério que não entendo.

EMÍLIA

- Pois eu entendo! É que todos os dias a Mocha come mandioca. E leite, na minha opinião, é mandioca líquida.

NARIZINHO

- Que sandice, Emília! Que bobagem!

Justamente nesse instante a vaca deu um mugido. O Príncipe, que não esperava por aquilo, caiu para trás com o susto.

NARIZINHO

- Coitadinho! Não precisa se assustar assim. A Mocha dá esses berros só de brincadeira.

O Príncipe, entretanto, não quis mais saber de histórias.

PRÍNCIPE

- Sofro do coração, e se essa senhora berra outra vez, sou capaz de cair em desmaio. Vamos embora...

FIM



A Visita Inesperada
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

Num dia de sol muito quente Narizinho e Emília sentaram-se à sombra da jabuticabeira, à espera de Pedrinho que fora ao mato cortar varas para fazer uma arapuca. De repente, um miado de gato. Narizinho admirou-se, porque não havia gatos no sítio. Nisto uma cara de gato apareceu numa moitinha perto delas, a olhar para as duas com muita curiosidade.

GATO

- Estive no fundo do mar, onde me empreguei numa corte muito bonita de um tal de Príncipe Escamado. Ele me disse que hoje, sem falta, vem ao sítio de Dona Benta fazer uma visita.

NARIZINHO

- Vai ser uma lindeza! Vovó e Tia Nastácia vivem duvidando do que eu digo. Quero ver a cara delas agora... Vamos pregar uma surpresa na vovó. Preciso combinar tudo com Pedrinho.

Pedrinho veio e os quatro levaram uma porção de tempo combinando a surpresa que iriam pregar na vovó. O Gato fora mandado ao encontro do Príncipe para avisá-lo na hora exata que devia chegar. Em seguida Pedrinho fez recomendações à boneca.

PEDRINHO

- A surpresa vai ser no finzinho do almoço. Mas você não pegue fazendo cara de muito sabida, que vovó desconfia.

Chegada a hora do almoço, todos foram para a mesa. Nada passou de extraordinário até a hora do café. Aí Dona Benta fixou os olhos em Emília e disse:

DONA BENTA

- Estou desconfiada de que vocês estão me armando alguma peça. Essa cara de sonsa de Emília não me engana.

Emília nunca soube fingir. Quando ia fingir, fingia demais e estragava o fingimento. Mas Narizinho sossegou a boa velha.

NARIZINHO

- Não é nada vovó. Emília é bobinha.

Nisto ouviu-se um rumor lá fora, em seguida de uma batida na porta – uma batidinha muito delicada – tic, tic, tic...

DONA BENTA

- Quem será? Nastácia, venha ver quem bate, por favor.

Tia Nastácia apareceu. Foi abrir, mas de acordo com o seu costume olhou primeiro pelo buraco da fechadura. Olhou e ficou assombrada.

DONA BENTA

- Que é filha de Deus?

TIA NASTÁCIA

- Credo! O mundo está perdido!...

DONA BENTA

- Mas o que é? Desembuche...

TIA NASTÁCIA

- É uma bicharada que não acaba mais! O terreiro está “assim” de peixe, de caranguejo, de concha, de tudo que é bicho esquisito que vive lá no fundo do mar.

DONA BENTA

- Eu bem estava adivinhando que haveria coisa hoje!

Disse Dona Benta erguendo-se da mesa para espiar também. Arrumou os óculos e olhou pelo buraco da fechadura. Ficou ainda mais assombrada do que a cozinheira ao ver toda a população miúda do mar rodeando a casa.

DONA BENTA

- Que significa isto?

NARIZINHO

- Não é nada vovó. É o Príncipe Escamado e sua corte que vem fazer uma visitar. Ele quer muito conhecer a senhora. Eles são todos muito boa gente. Vão passar aqui a tarde e garanto que não desarrumam coisa alguma. Vovó pode ficar descansada.

TIA NASTÁCIA

- Não deixe Dona Benta! Não abra a porta. É tanto bicho esquisito que até estou me tremendo de medo.

NARIZINHO

- Eles não mordem, boba! São criaturinhas civilizadas e de muito boa educação.

Tia Nastácia foi tratando de botar tranca na porta. Vendo que a tranca iria estragar todo seu plano, Pedrinho elaborou outro.

PEDRINHO

- Vovó e Tia Nastácia estão tremendo de medo, sem coragem de abrir a porta. Isso é que não! Já que vieram, têm que entrar, quer as duas queiram, quer não queiram. Já que não podem entrar pela porta, entrarão pela janela.

E foi correndo buscar uma escada. Enquanto Tia Nastácia, depois de colocar a tranca na porta, procurava arrastar a mesa para formar uma barracada, o príncipe e sua comitiva iam subindo pela escadinha que o menino trouxera. Subiram e pularam para dentro da sala. Quem primeiro pulou foi o Doutor Caramujo. Tia Nastácia, ainda às voltas com a mesa, ouviu o barulhinho e voltou-se. Deu um berro.

TIA NASTÁCIA

- Acuda! Estão pulando pela janela! Olhe atrás da senhora! Um bichinho de óculos, que é um verdadeiro “felômeno”...

NARIZINHO

- Não tenha medo, vovó. Este é o Doutor Caramujo, o grande médico que fez a Emília falar. Tem pílulas para todas as doenças.

Dona Benta havia voltado o rosto e visto atrás dela o Doutor Caramujo, de óculos, a lhe fazer um cumprimento muito amável. E o seu espanto, que já era grande, cresceu-se ainda mais ao ver surgir na janela um peixinho vestido de rei.

NARIZINHO

- Este é o Príncipe Escamado, rei do Reino das Águas Claras. E esta senhora, Príncipe, é a minha querida vovó, Dona Benta de Oliveira.

PRÍNCIPE

- Tenho muita honra em conhecê-la, minha senhora, e peço-lhe permissão para a tratar de vovó também.

DONA BENTA

- Ele fala mesmo, Nastácia! Fala tal qual uma gente...

A cozinheira fez o sinal da cruz. Enquanto isso os outros fidalgos da corte foram pulando. Pulou a Senhorita Sardinha. Pulou Dona Aranha a Costureira. Pulou o Bernardo-Eremita. Pulou o Major Agarra-e-Não-Larga-Mais. Cada um que pulava era um novo berro da cozinheira.

TIA NASTÁCIA

- E uma sardinha agora, sinhá! E agora uma aranha! E um sapo! Ai, credo, o mundo está perdido...

Por fim não aguentou mais: disparou para a cozinha. Dona Benta, porém foi se acostumando, e dali a pouco não estranhava coisa nenhuma. Começou até a achar uma graça enorme em tudo aquilo.

DONA BENTA

- Vocês têm razão, meus netos. Esse mundo em que vocês dois vivem é muito mais interessante do que o nosso

FIM



A Pescaria
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

Afinal acabaram as jabuticabas no Sítio do Pica-pau Amarelo. Somente nos galhos bem lá no alto é que ainda se via uma ou outra, todas furadinhas de vespa. Narizinho ainda aparecia de vez em quando de comprida vara na mão e nariz para o ar, na esperança de “pescar” alguma coisa.

TIA NASTÁCIA

- Arre, menina! Não chegou quase um mês inteiro chupando jabuticaba? Largue disso e venha me ajudar a estender essa roupa, que é melhor.

Narizinho jogou a vara no chão e foi correndo para o rio. Lá teve uma ideia: deixar a boneca pescando enquanto ajudava tia Nastácia.

NARIZINHO

- Tia Nastácia, faz um anzolzinho de alfinete para Emília. A coitada tem tanta vontade de pescar...

TIA NASTÁCIA

- Era só o que faltava! Eu, com tanto serviço, a perder tempo com bobagem.

NARIZINHO

- Faz? Alfinete, tenho aqui. Linha, há no alinhavo da minha saia. Vara não faz falta. Faz?

TIA NASTÁCIA

- Faço, sim.. Como não hei de fazer, doninha? Mas se ficar atrasada no serviço, a culpa não é minha.

E fez. Dobrou o alfinete na forma de gancho, amarrou-o na ponta de uma linha e descobriu uma vara – uma varinha de dois palmos, imaginem! Narizinho completou a obra, atando a vara ao braço da boneca.

NARIZINHO

- E a isca?

TIA NASTÁCIA

- Isca é o de menos. Qualquer gafanhotinho serve.

Salta daqui, salta dali, Narizinho conseguiu apanhou um gafanhoto verde. Espetou-o no anzol. Depois arrumou a boneca à beira d’água, muito tesa, com uma pedra ao colo para não cair.

NARIZINHO

- Agora, Emília, bico calado! Senão espanta os peixes. Logo que um deles beliscar – zuct! – dê um puxão na linha. Tia Nastácia, você me faria para o jantar o peixinho da Emília, Nastácia? Frita?

TIA NASTÁCIA

- Frito sim! Frito até no dedo!...

NARIZINHO

- Não caçoe, Nastácia! Emília é uma danada. Ninguém sabe de quanta coisa ela é capaz.

Palavras não eram ditas e – tchibum!...- pescadora de pano revirava dentro d’água, com pedra e tudo.

NARIZINHO

- Acuda, Nastácia! Emília está se afogando!

De fato. Um peixe engolira a isca e, lutando por safar-se do anzol, arrastara a boneca para o meio do rio. Tia Nastácia arranjou uma cara de gancho e com muito jeito foi puxando para a beira do córrego a infeliz pescadora, até o ponto onde a menina a pudesse agarrar. Assim aconteceu – e qual não foi o assombro de Narizinho vendo sair d’água, presa no anzol de Emília, uma trairinha que rabeava como louca! Tia Nastácia ficou boquiaberta.

TIA NASTÁCIA

- Credo! Até parece feitiçaria!

Muito contente da aventura, Narizinho disparou para casa com o peixe na mão.

NARIZINHO

- Vovó, adivinhe quem pescou essa trairinha...

DONA BENTA

- Ora, quem mais! Você, minha filha.

NARIZINHO

- Errou!

DONA BENTA

- Tia Nastácia, então.

NARIZINHO

- Qual Nastácia, nada!...

DONA BENTA

- Então foi o Saci.

NARIZINHO

- Vovó não adivinha! Foi a Emília...

DONA BENTA

- Está bobeando de sua avó, minha filha?

NARIZINHO

- Juro! Palavra de Deus que foi a Emília, Pergunte a Tia Nastácia, se quiser.

Tia Nastácia vinha entrando com a trouxa de roupa lavada à cabeça.

NARIZINHO

- Não foi mesmo, Tia Nastácia? Não foi a Emília quem pescou a trairinha?

TIA NASTÁCIA

- Foi sim, sinhá. Foi a boneca. Imagina que menina reinadeira é essa! Arranjou jeito de botar a boneca pescando na beira do rio e o caso é que o peixe está aí...

DONA BENTA

- Bem diz o ditado, que quanto mais se vive mais se aprende. Estou com setenta anos e todos os dias aprendo coisas novas com esta minha neta do chifre-furado...

E com a menina dançando à sua frente, Tia Nastácia lá foi para a cozinha fritar a traíra. Só depois de comer peixe frito é que Narizinho se lembrou da pobre boneca, encharcada pelo banho no rio.

NARIZINHO

- A coitada!... É bem capaz de pegar uma pneumonia...

E foi correndo cuidar dela. Estendeu a pobre Emília num lugar de bastante sol. E já ia retirar-se quando a boneca fez cara de choro.

EMÍLIA

- Eu aqui não fico sozinha!...

NARIZINHO

- Por quê? Tem medo de que o leitão venha lhe morder?

EMÍLIA

- Morder não é nada, ele é capaz de me comer. Tia Nastácia diz que Rabicó devora tudo o que encontra.

NARIZINHO

- Neste caso, penduro você na árvore.

EMÍLIA

- E se alguma vespa me ferrotoar?

NARIZINHO

- Boba! Vespa não ferra pano.

EMÍLIA

- E se eu cair com o vento?

NARIZINHO

- Grande coisa! Boneca de pano quando cai não se machuca.

Narizinho, porém, ficou ao lado da boneca, porque lá no seu íntimo estava com receio de deixa-la sozinha. E esperou até Emília secar, quando finalmente puderam voltar juntas para casa.

FIM

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