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A Pílula Falante



A Pílula Falante
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

Narizinho ficou no Reino das Águas Claras por algum tempo. Inclusive foi convidada a participar de uma festa preparada no castelo do Príncipe, feita em sua homenagem. No dia seguinte a este maravilhoso baile, a menina levantou-se cedo para levar a boneca ao consultório do Doutor Caramujo. Encontrou-o com a cara de quem havia comido um urutu recheado de escorpiões.

NARIZINHO

- Que há doutor?

DOUTOR CARAMUJO (DR.C)

- Há que encontrei o meu depósito de pílulas saqueado. Furtaram-me todas...

NARIZINHO

- Que coisa! Mas não pode fabricar outras? Se quiser, ajudo a enrolar.

DR.C

- Impossível. Já morreu o besouro boticário, sem haver revelado o segredo a ninguém. A mim só me restava um cento, das mil que comprei dos herdeiros. O miserável ladrão só deixou uma, e imprópria para o caso porque não é pílula falante.

NARIZINHO

- E agora?

Nisto, apareceu um sapo num carrinho. Teve que vir sobre rodas por causa do estufamento da barriga; parece que ele engolira algumas pedras que haviam crescido de volume dentro. Esse sapo era o guarda do portão do reino das Águas Claras, que tinha o posto de major no exército marinho. Major Agarra-e-Não-Larga-Mais. O grande cirurgião abriu com a faca a barriga do sapo e retirou com a pinça de caranguejo a primeira pedra. Ao vê-la à luz do sol sua cara abriu-se num sorriso caramujal.

DR.C

- Não é pedra, não! É uma das minhas pílulas! Mas como teria ela ido parar na barriga deste sapo?...

Enfiou de novo a pinça e tirou nova pedra. Era outra pílula! E assim foi indo até tirar de dentro noventa e nove pílulas. A alegria do doutor foi imensa. Como não soubesse curar sem aquelas pílulas, ele estava com receio de ser demitido de médico da corte.

DR.C

- Podemos agora curar a Senhora Emília.

Declarou ele depois de costurar a barriga do sapo. Veio a boneca. O doutor escolheu uma pílula falante e pôs-lhe na boca. Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi:

EMÍLIA

- Estou com um horrível gosto de sapo na boca!

(Emília fala sem parar)

E falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. Falou tanto que Narizinho, atordoada, disse ao doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca.

DR.C

- Não é preciso. Ela que fale até cansar. Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isto é "fala recolhida", tem de ser botada para fora.

E assim foi. Emília falou por três horas sem tomar fôlego. Por fim, calou-se.

NARIZINHO

- Ora graças! Podemos agora conversar como gente!

Porém de repente rompeu um grande estrondo lá fora – o estrondo de uma voz que dizia:

TIA NASTÁCIA

- Narizinho, vovó está chamando!...

Tamanho susto causou aquele trovão entre os personagens do reino marinho, que todos sumiram, como por encanto. Sobreveio então uma ventania muito forte, que envolveu a menina e a boneca, arrastando-as do fundo do oceano para a beira do ribeirãozinho do pomar. Estavam no Sítio de Dona Benta outra vez. Narizinho correu para casa. Assim que a viu entrar, Dona Benta foi logo dizendo:

DONA BENTA

- Uma grande novidade, Lúcia. Você vai ter agora um bom companheiro para brincar aqui no sítio. Adivinhe quem é?

NARIZINHO

- Já sei, vovó! É o Major Agarra-e-não-larga-mais. Ele bem me falou que vinha.

DONA BENTA

- Você está sonhando, menina. Não se trata de major nenhum. Quem vem nos visitar é Pedrinho, filho da minha filha Antonica.

NARIZINHO

- E quando chega o meu primo?

DONA BENTA

- Deve chegar amanhã de manhã, Apronte-se. Arrume o quarto de hóspedes e endireite também essa boneca.

EMÍLIA

- Dona Benta, estou endireitada e muito bem arrumada, só meu cabelo que está um pouco bagunçado.

Disse Emília falando pela primeira vez depois de chegar no sítio. Tamanho susto levou Dona Benta, que por um triz não caiu de sua cadeira de pernas serradas. De olhos arregaladíssimos, gritou para a cozinheira:

DONA BENTA

- Corra, Nastácia! Venha ver esse fenômeno...

TIA NASTÁCIA

- Que é Dona Benta?

DONA BENTA

- A boneca de Narizinho está falando!...

TIA NASTÁCIA

- Impossível, sinhá! Isso é coisa que nunca se viu. Narizinho está mangando de você.

EMÍLIA

- Mangando seu nariz! Falo, sim, e hei de falar. Eu não falava porque era muda, mas o Doutor Cara de Coruja me deu uma bolinha de barriga de sapo e eu engoli e fiquei falando e hei de falar a vida inteira, sabe?

TIA NASTÁCIA

- Fala mesmo!... Fala que nem gente! Credo! O mundo está perdido...

E encostou-se na parede para não cair.

FIM


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