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A Pescaria



A Pescaria
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

Afinal acabaram as jabuticabas no Sítio do Pica-pau Amarelo. Somente nos galhos bem lá no alto é que ainda se via uma ou outra, todas furadinhas de vespa. Narizinho ainda aparecia de vez em quando de comprida vara na mão e nariz para o ar, na esperança de “pescar” alguma coisa.

TIA NASTÁCIA

- Arre, menina! Não chegou quase um mês inteiro chupando jabuticaba? Largue disso e venha me ajudar a estender essa roupa, que é melhor.

Narizinho jogou a vara no chão e foi correndo para o rio. Lá teve uma ideia: deixar a boneca pescando enquanto ajudava tia Nastácia.

NARIZINHO

- Tia Nastácia, faz um anzolzinho de alfinete para Emília. A coitada tem tanta vontade de pescar...

TIA NASTÁCIA

- Era só o que faltava! Eu, com tanto serviço, a perder tempo com bobagem.

NARIZINHO

- Faz? Alfinete, tenho aqui. Linha, há no alinhavo da minha saia. Vara não faz falta. Faz?

TIA NASTÁCIA

- Faço, sim.. Como não hei de fazer, doninha? Mas se ficar atrasada no serviço, a culpa não é minha.

E fez. Dobrou o alfinete na forma de gancho, amarrou-o na ponta de uma linha e descobriu uma vara – uma varinha de dois palmos, imaginem! Narizinho completou a obra, atando a vara ao braço da boneca.

NARIZINHO

- E a isca?

TIA NASTÁCIA

- Isca é o de menos. Qualquer gafanhotinho serve.

Salta daqui, salta dali, Narizinho conseguiu apanhou um gafanhoto verde. Espetou-o no anzol. Depois arrumou a boneca à beira d’água, muito tesa, com uma pedra ao colo para não cair.

NARIZINHO

- Agora, Emília, bico calado! Senão espanta os peixes. Logo que um deles beliscar – zuct! – dê um puxão na linha. Tia Nastácia, você me faria para o jantar o peixinho da Emília, Nastácia? Frita?

TIA NASTÁCIA

- Frito sim! Frito até no dedo!...

NARIZINHO

- Não caçoe, Nastácia! Emília é uma danada. Ninguém sabe de quanta coisa ela é capaz.

Palavras não eram ditas e – tchibum!...- pescadora de pano revirava dentro d’água, com pedra e tudo.

NARIZINHO

- Acuda, Nastácia! Emília está se afogando!

De fato. Um peixe engolira a isca e, lutando por safar-se do anzol, arrastara a boneca para o meio do rio. Tia Nastácia arranjou uma cara de gancho e com muito jeito foi puxando para a beira do córrego a infeliz pescadora, até o ponto onde a menina a pudesse agarrar. Assim aconteceu – e qual não foi o assombro de Narizinho vendo sair d’água, presa no anzol de Emília, uma trairinha que rabeava como louca! Tia Nastácia ficou boquiaberta.

TIA NASTÁCIA

- Credo! Até parece feitiçaria!

Muito contente da aventura, Narizinho disparou para casa com o peixe na mão.

NARIZINHO

- Vovó, adivinhe quem pescou essa trairinha...

DONA BENTA

- Ora, quem mais! Você, minha filha.

NARIZINHO

- Errou!

DONA BENTA

- Tia Nastácia, então.

NARIZINHO

- Qual Nastácia, nada!...

DONA BENTA

- Então foi o Saci.

NARIZINHO

- Vovó não adivinha! Foi a Emília...

DONA BENTA

- Está bobeando de sua avó, minha filha?

NARIZINHO

- Juro! Palavra de Deus que foi a Emília, Pergunte a Tia Nastácia, se quiser.

Tia Nastácia vinha entrando com a trouxa de roupa lavada à cabeça.

NARIZINHO

- Não foi mesmo, Tia Nastácia? Não foi a Emília quem pescou a trairinha?

TIA NASTÁCIA

- Foi sim, sinhá. Foi a boneca. Imagina que menina reinadeira é essa! Arranjou jeito de botar a boneca pescando na beira do rio e o caso é que o peixe está aí...

DONA BENTA

- Bem diz o ditado, que quanto mais se vive mais se aprende. Estou com setenta anos e todos os dias aprendo coisas novas com esta minha neta do chifre-furado...

E com a menina dançando à sua frente, Tia Nastácia lá foi para a cozinha fritar a traíra. Só depois de comer peixe frito é que Narizinho se lembrou da pobre boneca, encharcada pelo banho no rio.

NARIZINHO

- A coitada!... É bem capaz de pegar uma pneumonia...

E foi correndo cuidar dela. Estendeu a pobre Emília num lugar de bastante sol. E já ia retirar-se quando a boneca fez cara de choro.

EMÍLIA

- Eu aqui não fico sozinha!...

NARIZINHO

- Por quê? Tem medo de que o leitão venha lhe morder?

EMÍLIA

- Morder não é nada, ele é capaz de me comer. Tia Nastácia diz que Rabicó devora tudo o que encontra.

NARIZINHO

- Neste caso, penduro você na árvore.

EMÍLIA

- E se alguma vespa me ferrotoar?

NARIZINHO

- Boba! Vespa não ferra pano.

EMÍLIA

- E se eu cair com o vento?

NARIZINHO

- Grande coisa! Boneca de pano quando cai não se machuca.

Narizinho, porém, ficou ao lado da boneca, porque lá no seu íntimo estava com receio de deixa-la sozinha. E esperou até Emília secar, quando finalmente puderam voltar juntas para casa.

FIM

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