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As Jabuticabas



As Jabuticabas
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Adaptado do livro Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato

No sítio de Dona Benta havia vários pés, mas bastava um para que todos se regalassem até enjoar. Justamente naquela semana, as jabuticabas tinham chegado “no ponto” e Narizinho, neta de Dona Benta, não fazia outra coisa senão chupar jabuticabas. As jabuticabas tinham outros fregueses além da menina. Sanhaços, abelhas e vespas. Vespas em quantidade, sobretudo no final, quando as jabuticabas ficavam que nem um mel. Escolhiam as melhores frutas, furavam-na com ferrão, enfiavam meio corpo dentro e deixavam-se ali ficar quietinhas, sugando até caírem de bêbadas. As vespas nunca tinham mordido alguém, mas justamente naquela tarde uma mordeu. Estava Narizinho, com sua boneca Emília, distraída no galho de uma árvore. Ela pensava na surpresa que o Príncipe Escamado teria se recebesse uma jabuticaba de presente, quando levou à boca uma das tais furadinhas, com meia vespa dentro. E então o que soou foi um berro.

NARIZINHO

- Ai! ai! ai!...

Tão bem berrado que lá dentro da casa as duas velhas ouviram.

DONA BENTA

- Que será isso?

TIA NASTÁCIA

- Aposto que é vespa! Narizinho não saí da “fruteira” e, como nunca foi mordida, abusa. Eu sempre digo a ela: “Cuidado com as vespas!”, mas Narizinho não faz caso. Agora tá aí...

E foi correndo ao pomar acudir a menina. Encontrou-a já de volta, de língua inchada e à mostra, porque fora bem na ponta da língua que a vespa ferrotoara. Tia Nastácia trouxe-a para casa, olhou-a no olho e disse:

TIA NASTÁCIA

- Sossegue boba, dói mas passa. Agora põe a língua para fora para eu arrancar o ferrão. Vespa quando morde deixa o ferrão no lugar da mordedura. Bem para fora. Assim.

Narizinho espichou meio palmo de língua e Tia Nastácia, com dificuldade, porque já tinha a vista fraca, pôde afinal descobrir o ferrão e arrancá-lo.

TIA NASTÁCIA

- Pronto! Está aqui o malvado. Agora é ter paciência e esperar que a dor passe. Se fosse mordida de cachorro bravo seria muito pior...

Narizinho curtiu a dor por alguns minutos, de língua inchada, olhos vermelhos, soluçando de vez em vez. Quando a dor passou, já era tarde. À noite, à hora de deitar-se, ela se lembrou de que havia esquecido a sua boneca Emília debaixo da jabuticabeira.

NARIZINHO

- Pobre da Emília! Deve estar morrendo de medo das corujas...

Então pediu a tia Nastácia para buscá-la. Ela trouxe a boneca, toda úmida de orvalho e danadíssima com o esquecimento da menina. E só com a promessa de um belo vestido novo é que desamarrou o burro.

NARIZINHO

- Pois muito bem, Emília. Nós faremos um lindo vestido de chita para você e todas as criaturas do mundo irão torcer-se de inveja!...

EMÍLIA

- Todas menos uma...

NARIZINHO

- Quem?

EMÍLIA

- A vespa que ferrou sua língua.

NARIZINHO

- Explique-se Emília. Não estou entendendo nada.

EMÍLIA

- Quero dizer que a tal vespa está morta e enterrada no fundo da terra. Assisti a tudo. Quando ela ferrou sua língua e você gritou ai! ai! ai!, a jabuticaba cuspida caiu bem pertinho de mim. Vi então tudo que se passou.

E a boneca contou direitinho o triste fim da pobre vespa.

EMÍLIA

- Ela ficou quase uma hora metida dentro da casca, toda arrebentadinha, mexendo ora uma perna, ora outra. Afinal parou. Tinha morrido. Vieram as formigas cuidar do enterro. Olharam, olharam, estudaram a melhor maneira de tirá-la dali. Chamaram outras e deram começo ao serviço. Cada qual a agarrou uma perninha e, puxa que puxa, logo a arrancaram de dentro da jabuticaba. E foram-na arrastando por ali afora até a cova, que é o buraco onde as formigas moram. Lá pararam à espera do fazedor de discursos. Veio ele, de discursinho em baixo do braço, escrito num papel, e leu, leu, leu que não acabava mais. As formigas se aborreceram e apitaram. Veio então um louva-a-deus com um pauzinho e arrolhou o orador de discursos. As formigas, muito contentes, continuaram o serviço. E levaram para o fundo da cova o cadáver da vespa. Em seguida veio uma que trouxe um letreiro, fincou num montinho de terra, escrito assim:

AQUI NESTE BURACO JAZ UMA POBRE VESPA ASSASSINADA NA FLOR DOS ANOS PELA MENINA DO NARIZ ARREBITADO. ORAI POR ELA!

Feito isso, recolheu-se. Era noite quase fechada. No pomar deserto só estava o besourinho, sempre engasgado com o pau. Queria à viva força continuar o discurso. Quando, por fim conseguiu destapar-se ele imediatamente continuou: “Neste momento solene...”. Nisto um sapo, ia passando, alumiou o olho e disse: “Espere que eu te curo!...”. Deu um pulo e engoliu o fazedor de discursos!

NARIZINHO

- Não reparou, Emília, se esse sapo era o Major Agarra-e-Não-Larga-Mais”?

EMÍLIA

- Não era, não! Era o Como-Orador-com-Discurso-e-Tudo…

FIM

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